quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Sábado, dia 6 de Setembro – Deixei o meu coração em África

Estou a aguardar pela chegada do avião que me vai levar a Lisboa e sinto um embrulho de sentimentos contraditórios, o que prova que Africa mexe connosco de uma forma especial. Já fiz muitas viagens, já vi coisas magníficas, construções maravilhosas, conheci povos com muita força, povos que sofreram muito… mas nunca tinha visto este Mundo…Africa é uma realidade diferente de tudo o que poderia imaginar. Assim que cheguei a Africa as leis mudaram…não há tantas regras, nada é o que parece, há calma, não há stress, as pessoas mostram a dentadura completa por onde quer que olhemos, o sorriso é uma presença notória…
Senti que a minha mentalidade tinha de mudar, de se adaptar, e foi isso que tentei fazer, na minha opinião com menos êxito do que gostaria, mas tentei desligar o programa europeu e sintonizar o africano, para começar a absorver a beleza de Africa o mais rapidamente possível.

Acho que me consegui sintonizar a tempo de aproveitar o clima, as pessoas, os hábitos, a comida, os valores, a cultura. Aprendi muita coisa, aprendi por exemplo que os recursos básicos e essenciais são de facto escassos e podem faltar…e depois? Depois é um problema…tomar banho com água castanha de suja que está pode ser uma bênção para muita gente, e à falta de melhor… para mim também foi bom, a partir do momento em que aceitei esta realidade.

Luz, Internet, TV??? Recursos falíveis e por isso dispensáveis…a família, o sexo, o diálogo, o copo, a praia e os passeios assumem em Africa um papel mais importante do que as relações unilateriais que se estabelecem através da tv e do rádio…portanto não é de estranhar que haja um choque de pensamento e de modo de viver muito grande.

A sorte acompanhou-me durante toda a viagem, desde o momento em que parti no avião, rumo a Luanda até ao momento em que cheguei, após 5 semanas a Lisboa. Fui acompanhada de uma equipa maravilhosa, ganhei 6 novos padrinhos :) e 1 anjo da guarda que nunca mas nunca me falhou. Tive a sorte inesperada de conhecer pessoas magníficas (portugueses e angolanos) que trabalham no Lobito e que me deram a oportunidade de conhecer o Lobito profundo, protegendo-me de qualquer mal, conhecer melhor a mentalidade dos angolanos, compreender e respeitar…e até admirar o modo de vida dos angolanos.
Todas estas pessoas contribuíram para um crescimento pessoal surpreendente, e só tenho a agradecer por terem feito desta experiência, algo que jamais irei esquecer.


Hoje, já em Portugal…um dia após ter chegado, sinto-me bem sendo portuguesa, sinto-me bem no meu país, mas também sinto saudade e vontade de voltar a Angola. Não posso dizer literalmente que “Deixei o meu coração em África”, mas certamente que África está no meu coração e tudo farei para voltar e ajudar um povo que realmente merece todo o nosso apoio e dedicação. Esse é o meu caminho e essa é a minha missão. Sempre senti que a minha vida era desprovida de uma missão. Claro que constituir família, trabalhar em algo meu e ter um lar fazem parte da minha missão de vida, mas sempre faltou qualquer coisa. Tive de ir a Africa para descobrir que a minha missão passa também pelo meu desejo de ajudar quem mais precisa, e se assim é, então lutarei para que aconteça o mais depressa possível.

Em Outubro irei voltar, para mais uma temporada no Lubango, até lá pode ser que surjam mais oportunidades que me levem de volta ao paraíso e que me ajudem a cumprir a minha missão.

P.S.- estou a ler o livro: “Deixei o meu coração em África”, estou certa que me irá trazer boas recordações.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Lobito, dia das Eleições, 05 de Setembro de 2008

Hoje é dia 6 de Setembro e estou a escrever da sala de espera do aeroporto internacional de Luanda…estou a aguardar a chamada do voo que me vai levar de volta a CASA!!!!!

Como o tempo de espera é grande e a bateria do pc também permite, vou divagar um pouco sobre o que foi, aos meus olhos, o dia mais importante dos últimos anos para os angolanos – o dia das eleições legislativas, a 2ª acção deste género em toda a história do país.

Desde que cheguei a Angola que fui bombardeada com publicidade sobre civismo e eleições (TV, rádio, panfletos, cartazes, posters, outdoors). Foi impossível ficar imune ao contágio desta “epidemia” que se espalhou por todo o lado, com certeza em pouco tempo. E fui mesmo contagiada, porque o meu desejo de participar neste evento foi crescendo a cada dia…a ansiedade, o nervoso miudinho e também a alegria de ver um país a recompor-se de uma forma excepcional, levou-me a querer no mínimo, registar o maior número de detalhes possível sobre este grande acontecimento.

Para começar a publicidade na TV apela ao voto de uma forma muito terra-a-terra, nada política. Os anúncios mostram por exemplo uma família, como tantas outras angolanas, que decidem construir a sua casa e vão a votos. O intuito deste anúncio é o de mostrar que um indivíduo que não votou, poderia ter tido um papel importante numa decisão que lhe era fundamental. Claro que todas as publicidades deste género terminam com música, uma melodia muito popular com letra muito clara: Todos Ao Voto! Todos Ao Voto! Não há africano que não comece a abanar a anca assim que ouve esta música, e só isso já ajuda ao voto, até mais do que a encenação da casa.

Aqui a música exerce um poder indescritível sobre as pessoas. Elas nascem com um sentido de ritmo impressionante. Até nas filas de supermercado as pessoas dançam e cantam ao som da música ambiente que passa baixinho nas colunas, o Kizomba. Em Portugal se alguém tivesse esta reacção seria considerado Maluquinho…é muito giro ver isto e mais do que isso…eu concordo com esta maneira de ser, bem mais alegre e descontraída!

Bom como ia a contar, o contágio foi total, além das publicidades seguiram-se comícios dos respectivos partidos, em que a adesão era fenomenal. As pessoas apoiavam os seus líderes, aplaudiam, assobiavam, gritavam, dançavam…todas as reacções eram bem-vindas…porque afinal traduziam a alegria e a segurança que finalmente começam a sentir de forma sólida no peito…Claramente existe despreocupação, ninguém olha para trás, ninguém receia expressar-se, bem pelo contrário…quem imaginaria ver nas ruas de Luanda bandeiras do MPLA a menos de 5metros de distância de bandeiras da UNITA? Quem imaginaria que o mesmo local serviria de comício para dois partidos diferentes? Impensável…em 1992 o local seria primeiro destruído e só depois seria cedido ao 2º partido…é triste mas era esta a realidade da altura, daí os acontecimentos que depois tiveram lugar nessas eleições.

Chegara a famosa sexta-feira dia 5. Depois de ser dada tolerância de ponto na tarde de 5ª feira, para que as pessoas pudessem começar a preparar-se e deslocar-se para os locais de voto (atenção que aqui a maioria das pessoas desloca-se a pé, de forma a cativar as pessoas para o voto, foi importante dar tempo e oportunidade). Fui convidada pelos meus novos amigos da Secil Lobito a observar as eleições em vários pontos do Lobito, então por volta das 10h seguimos para o local onde o Sr.HC iria exercer o seu direito de voto…Como as filas de espera eram grandes, as pessoas poderiam memorizar a cara do seu líder ou a bandeira.

Quando chega a vez da pessoa votar, pois então é-lhe dado o boletim de voto e depois de assinalar a sua escolha e de inserir o boletim na urna, chega a hora de garantir que esta pessoa não votará mais de uma vez nestas eleições…molha-se o dedo em tinta que permanecerá na pele durante 24h, no mínimo.

Podem achar estranha esta acção, mas de facto é inteligente. Porque o sistema informático ainda é pouco fiável, porque os registos e a comunicação podem falhar, e porque as pessoas podem votar em qualquer mesa de voto que lhes fique mais próximo, de forma a optimizar a deslocação de todos. Há que garantir que ninguém vota duas vezes, nada melhor que um carimbo semi-permanente J

Mas mais do que isso, esse carimbo trás consigo um espírito de união inimaginável. Muito interessante é perguntar pela “prova do crime” às pessoas e notar um sorriso rasgado sempre que mostram o dedo pintado…ninguém ficou ileso, todos levaram com a célebre tinta…e há orgulho nisso. Daquilo que vi, as eleições correram de forma muito pacífica e ordeira, pena é que houvesse falta de organização e que isso trouxesse consigo falta de recursos, nomeadamente materiais. É muito triste ver pessoas que andaram muitos kms para poderem votar e quando chegam às mesas de voto não havia boletins de voto…acabaram, esgotaram! Isto aconteceu em vários pontos do país, inclusive em Luanda, onde ainda a esta hora (20.00) creio que decorrem os últimos votos. Este acontecimento tem sido alvo de grande atenção por parte de todo o Mundo. Observadores vieram de todos os cantos do planeta relatar o que viram. É um momento histórico que não podia falhar. O mais importante foi assegurado, a segurança das pessoas! Faltou a organização, poderá acontecer que o líder da comissão organizadora seja demitido.

Gostei de poder presenciar este momento e espero estar cá novamente quando forem as eleições presidenciais, daqui a um ano, por volta desta mesma altura.

Abraço.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Cultura vs Vida

Quando vim para Africa tinha a noção de que iria encontrar aqui uma cultura muito forte, muito enraizada nas pessoas, muito tradicionalista. Afinal, 30 anos de guerra fez com que muitas "leis" do passado se fortificassem ainda mais, proibindo qualquer tipo de modernização. Isso vê-se em inúmeros detalhes. Mas preocupa-me um detalhe em particular...a saúde das pessoas. Bem sei que aqui o conceito de família, de amor, até de sexo é diferente; e respeito isso. Estou longe de concordar mas respeito porque entendo as origens. Nós também já fomos assim há 30 anos e na realidade haverá com certeza locais do nosso pais onde as pessoas ainda se comportam desta forma. Familias paternalistas, onde a palavra do homem é a primeira e a última, famílias com 10, 15 filhos, e onde existe violência doméstica...ou não...quer dizer...esse conceito é moderno, as mulheres sempre foram vítimas de abusos e isso nunca foi considerado um "abuso", fazia parte; o conceito de violência doméstica há-de ser recente!

Aqui o que me preocupa é a violação dos direitos das mulheres. Se não reparem, por exemplo, um caso que conheci hoje... uma rapariga de 21 anos, muito engraçada, intelectualmente avançada até, para o que é vulgar aqui, candidata à universidade; tem um problema nos seios, tem nódulos que podem ser ou até já serão malignos.

O médico receitou-lhe há um ano um gel em alternativa a uma operação (recomendada) que ela não quer fazer, porque se a fizer, ficará "mutilada" e poderá nunca casar, porque os homens não a vão querer. Provavelmente irão considerá-la inútil para a amamentação ou até procriação...vão considerá-la uma aleijada!!!

A preocupação dela, que deveria ser a de proteger a sua vida, querendo ser operada o mais depressa possível...não é. Ela preocupa-se com o casamento, com a família.

Infelizmente parece que o medicamento não existe cá e estamos nós a tomar as devidas medidas para trazer para cá o dito cujo. Mas é de lamentar isto...

Culturas machistas onde sempre morreram milhares e milhares de vidas...ainda florescem aqui em Africa e não há nada que possamos fazer, se não tentar ajudar com os meios que temos e que eles aceitam.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Lobito: Mecânica Mental Angolana

Olá. São 13.12h da tarde e depois de um bom almocinho, resolvi escrever os factos da manhã. Novamente para ocupar os tempos livres de quem espera pela sua vez de fazer os testes computorizados, resolvi arranjar um tema de conversa e uns jogos...eles acabaram por se interessar pelos jogos. Então foi muito engraçado porque fiz aqueles problemas de bolso, que toda a gente sabe mas erra sempre :) , o problema do barco que é "vitima" da subida da maré; o do caracol que quer subir um poste, mas ao subir 2m e desce 1m, o dos 9 pontos que têm de ser atravessados por apenas três linhas,

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o dos simbolos:

I
I I
II I
I II I I
I I I II II I
(escrevam a proxima linha se conseguirem)

ah também fiz aqueles de Insight:

- Uma familia tem 5 irmãos, cada irmão tem uma irmã, tendo em conta a mãe, quantas mulheres ha na familia?
- Uma Sra. deixou cair um lenço de papel num copo cheio de café, mas o lenço nao se molhou, como?
- Um policia apanhou um individuo sem carta de condução, a ignorar um sinal vermelho e em sentido contrario numa rua de sentido unico, mas ainda assim nao o multou, porquê?
...

Foi a risada total, muitos "Ahas", muitas auto-"belinhas" nas testas, poucas ou quase nenhumas respostas correctas. Já levaram coisas novas para casa e o tempo passou-se de uma forma melhor, mais intelectualmente estimulante. à tarde vou repetir :) e até já tenho mais jogos, contribuição do Sr.MP

Hoje à noite para descomprimir do trabalho e para mimar o corpinho, vou atacar uns caranguejos, juntamente com os meus colegas. Uma boa comidinha anima o coração e afasta os mimos que se depositam diariamente com a saudade.

Beijocas

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Lobito "Formação de novos hábitos"

olá,
são 17.46h e está findo mais um dia cansativo de selecção, com muitas provas, riscos e rabiscos, pontos e traços, cores e sons...o suficiente para fazer doer a cabeça ao fim de algumas horas, mas foi muito bom!
Os meus candidatos são na generalidade batoteiros, então tenho que lidar com eles de forma mais "militar", o que acaba por ser engraçado :) , porque no fim eles até alinham no jogo. A maior parte deles continua a fazer um exercício depois de eu já ter pedido e repetido para pararem e pousarem as canetas... Enquanto recolho os exercícios, os que ainda os têm vão escrevendo e ao mesmo tempo olham para mim para me controlarem...decidi tomar medidas drásticas: "Quando eu disser "STOP", todos levantam os dois braços no ar como se estivessem numa festa, quero ver todos com os braços no ar", assim que disse esta frase, lembrei-me logo dos muitos concertos de BJ a que fui: "You Gotta Raise your Hands; Put your hands together and say Hi Mamma"... uma memória interessante, para se ter em Angola. Bom...eles riam-se todos mas cumpriram, portanto acabou-se a batotice.

Para continuar com a diversão, e enquanto um a um se fazem os testes computorizados, vou falando com os outros para que eles não esmoreçam e fiquem moles... é que aqui o pessoal boceja muiiiiito a seguir ao almoço (nada de semelhante com Portugal, claro está :) :) ) então decidi perguntar se algum deles tinha curiosidade em saber alguma coisa de Portugal, do modo de pensamento europeu, enfim coisas da vida.

Houve uma candidata que puxou pela minha língua afiada e começou a falar de modas! Bom, modas = tendências =inovação= modernidade = mudança = visual = estética = cirurgia... já se está a ver onde a conversa foi parar!

2 minutos depois tinha 10 olhinhos chocados a olhar para mim enquanto eu lhes dizia que as europeias e americanas querem ser como as africanas, que são as suas mulheres-modelo (não se choquem agora os meus leitores) e que por isso recorrem ao cirugião plástico para aumentar determinadas partes do corpo com "saquinhos" de gel ou seringadelas de gel.

Giro foi observar as reacções e as frases que saiam das suas bocas, muitos risos de espanto, muitos não's acenados seguidos de:
"Mas isso não é normal, como é possível isso? Não prejudica? Mas isso vai contra o que Deus criou...",
o espanto aumentou quando lhes revelei que em países desenvolvidos a medicina já muda o que Deus criou na sua totalidade...é verdade, a medicina já anda de mãos dadas com Deus e faz cá por terra os seus milhares de Milagres diários, ao transformar meninos em meninas e vice-versa, e que no final do dia até é um acto louvável considerando os benefícios que tal "re"criação faz à psique das pessoas em causa.

Entretanto outros confessaram que já notaram que em Angola também ninguém está satisfeito com o que tem, as mulheres gordas querem ser mais magras, as magras querem ser mais gordinhas,.... Aqui só não se faz o mesmo que na Europa e América porque não há quem o faça, pois dinheiro e vontade há de sobra.

Verdade seja dita, este país vai evoluir em todas as direcções num curto período de tempo e a cirurgia plástica não será excepção, principalmente num povo que vai "ver-se tentado" a modernizar-se rapidamente...calculo que seja a loucura. As tendências é que serão outras provavelmente, já que a fisionomia é bem diferente da nossa. Espero que não sejam as tendências do Michael Jackson..
Gostava de acompanhar essa evolução. Curioso que quer as meninas em sala quer os meninos tiveram reacções à primeira vista negativas, o que demonstra que de facto a cirurgia plástica é uma "invenção" futurista e nada natural :)

Depois puxaram por mim para os aconselhar do ponto de vista pedagógico, já que sou psicóloga, perguntaram-me como é que eles podiam organizar-se mentalmente para não reprovarem nos testes cuja matéria até sabiam. Boa pergunta respondi eu...esse segredo ainda não foi totalmente revelado, mas apesar disso dei algumas dicas de respiração, concentração e motivação. Afinal, respirar pelo abdómen continua a dar os seus resultados, ler duas a três vezes os enunciados ajuda à compreensão e optar por fazer as perguntas mais fáceis deixando as dificeis para o fim também resulta.

Por fim acabámos por falar nos cursos superiores e em como seria bom se todos estes futuros maquinistas fossem contabilistas, engenheiros e gestores...vontade neles não falta! Uma das preocupações que eles me revelaram foi o custo excessivo de um curso destes, não necessariamente pelas propinas, que evidentemente são elevadas, mas também pelo preço exorbitante dos livros...pelo que identificaram há livros de economia a custarem 600 a 800 dólares...um verdadeiro exagero, livros que vêm de portugal a menos de metade do valor.

Bom, como os quis motivar a serem mais instruídos retirei-lhes esse peso de cima e ofereci-me para lhes comprar aqui em Portugal os livros da faculdade, dei-lhes o meu email, esperando que eles um dia me contactem para fazer pedidos de 4, 5 6 livros. Era bom sinal se o fizessem. Vamos ver, talvez esta história não fique por aqui.

No fim do dia, embora cansada de tanto repetir as mesmas indicações ("só podes reagir quando vires um sinal amarelo juntamente com um sinal sonoro; por favor coloca os pés nos pedais e clica com o pé esquerdo...agora com o direito...novamente com o esquerdo...por fim com o direito; responde às cores carregando nos respectivos botões... " ufa que canseira), foi muito bom ter três candidatos a darem-me os parabéns pelo trabalho desenvolvido e a exigirem que estes testes sejam feitos para qualquer profissão, não apenas para a deles, mas sobretudo para profissões ligadas à área de saúde.
Questionei-me se a qualidade dos profissionais de saúde aqui é baixa, que justifique esse apontamento deles. É bom ver reconhecido o trabalho e acima de tudo que eles se apercebam que uma selecção deste género é positiva e só aumenta as competências deles.

Mais um bom dia...agora esperam-me dezenas de testes para corrigir, mãos à obra então!

Até amanhã.

P.S.- Pinguim, marguinha, maninha, cunhadito e sobrinho, estou convosco esta noite em pensamento... divirtam-se, tenho muitas misses vossas.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Lobito - Compras

Hoje fui às compras. Foi-me aconselhado ir ao Jota & Jota, um supermercado com tudo, desde produtos alimentares, cosméticos, electrodomésticos, produtos para o lar, móveis,... fui comprar bens essenciais como leite e iogurtes, bolachas (os que me conhecem sabem que como muitas vezes por dia, e aqui no hotel, são as 3 tipicas refeições e nada mais), fiquei espantada com os preços. O mesmo leite que em Portugal se compra por 80 cêntimos (aproximadamente) aqui custa 2 euros. Um pacote de rebuçados que lá custa à volta de 2 euros, aqui custa 4 euros. O transporte inter-continental paga-se bem. O que mais me impressiona é que aqui o ordenado mínimo anda à volta de 200 dolares, creio. Não entendo como se consegue viver com estes preços...

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Obrigada pelos comentários

Olá,

depois de ler comentários interessantíssimos e super gratificantes, e também depois de conversar com o Sr.HC que já sentiu o mesmo que eu, só posso ficar contente por ter conseguido transmitir a minha visão para o "papel", porque compreendo que sentiram o que quis transmitir.

Aqui de facto pôde-se ver outra Africa, como o meu cunhadinho diz, é algo surpreendentemente diferente, eu diria mais...é o paraíso. E claro como a minha maninha disse, tenho vontade de levar uma criancinha daqui...se sempre tive vontade de adoptar um bebé, aqui sinto ainda mais essa vontade, os olhos destes bebés lindos parecem atrair-nos. Atingem-nos com uma seta directamente no coração.

Obrigada pat pelo comentário delicioso, sim é verdade que tenho vontade de ajudar os outros, e aqui essa vontade ganha proporções gigantescas, chega a ser incómodo porque se transforma em frustração.

Mas é isso...obrigada a todos pelas palavras, este blog tem sido uma companhia indispensável, não só porque me tem permitido manter a proximidade com "casa" e tudo o que isso implica (família, amigos,...) mas também porque tal como o Sr. HC sabiamente identificou, permite-nos reflectir e sobretudo não esquecer. E eu nunca vou querer esquecer as paisagens, as pessoas, os sentimentos que aqui vivi. Se realmente as palavras que escrevo conseguem pintar imagens, sentimentos reais e desejos, então Africa estará sempre comigo :) e eu sou uma pessoa mais feliz!

Espero-vos amanhã!

domingo, 24 de agosto de 2008

Visita a Catumbela

São 17h e acabei de chegar de uma visita fenomenal à Catumbela. Foi com certeza a paisagem mais bonita, invulgar e inspiradora que alguma vez vi em toda a minha vida. Até mesmo de tudo o que já vi aqui em Angola, fiquei derretida com tamanha beleza. Fui com o Sr.MP no super yaris rumo à Catumbela para disfrutar de mais uma bela tarde de domingo, pouco solarenta apesar de quente. Seguimos em direcção a um grande monte de onde pudémos deslumbrar uma vista impressionante sobre a região.

O rio catumbela que se divide um dois braços de rio a seguir à ponte ( ainda em construção pelos chinocas),



interrompe a paisagem verdejante intensa que se prolonga até ao oceano. Do lado oposto do monte, a paisagem não fica atrás, aliás por ser tão maravilhosa, decidimos explorá-la melhor. Como a imagem mostra, a região é habitada ao longo do monte do lado direito, pelas típicas construções, logo a seguir a vegetação cresce à beira rio, onde se vêem plantações de milho, tomate, mangas, bananas e feijão.


No cimo deste monte que afinal era privado existem uns bungalows incríveis, propriedade de um General. Destes Bungalows a vista é impressionante como dá para imaginar.



Por entre uma estrada bem estreita que divide os dois braços de rio e a vegetação em dois, fomos descobrindo a "selva" em busca do fim. E quando chegámos tivémos uma boa surpresa, a paisagem conseguiu ser ainda mais linda, com o rio no seu esplendor. Ainda esperámos ver crocodilos que sabemos existirem, mas os bichos estavam escondidos.


Encontrámos duas familias que sabiamente ocuparam a tarde domingo com uma bela refeição ao ar livre, até colunas com musica popular eles tinham. Curiosamente alguns já haviam estado em portugal, conehciam bem a nossa zona lisboeta e a Costa da caparica. Digamos que não têm de sentir "inveja", bem pelo contrário. Não é qualquer um que tem o previlégio de contemplar a naturza desta forma. Ao regressar encontrámos mais pessoas, a quem demos donativos em dinheiro, uns trocos...eram pessoas carenciadas.


Semi-nuas jovens mulheres e crianças lavam as roupas e brincam na margem do rio. Sempre sorridentes, sempre com uma simpatia no olhar negro profundo.




A expressão destas duas crianças diz tudo! Não há como não ficar impressionado com este povo. Não me apetecia sair dali, queria dar-lhes tudo! E tudo seria sempre pouco. Têm uma força de vida, um entusiamo e alegria surreais.

A viagem terminou com um aperto no coração e com um sentimento de saudade. Talvez também com um sentimento de dever não cumprido, porque naturalmente temos o desejo de ajudar esta gente e sentimos que não conseguimos fazê-lo.


Quanto mais tempo aqui passo mais vontade tenho de ajudar realmente estas pessoas, seja com comida, dinheiro, educação, qualquer coisa que eu pudesse fazer ou oferecer, qualquer coisa que faça a diferença.

Nós que vivemos em portugal, especialmente em cidades grandes, nós que trabalhamos em empresas, somos ao fim do dia somente um número, somos mais um entre muitos, e pouca diferença fazemos, por mais empenhados que sejamos no nosso trabalho. Quando chegamos a Africa e nos inserimos num projecto qualquer, notamos que que a nossa intervenção ganha relevância, e não falo de poder ou de reconhecimento, mas sim de repercussões directas e rápidas que vemos acontecerem diante dos nossos olhos. Pessoas que crescem diante de nós, pessoas que se educam, que re-aprendem a sorrir, que graças a nós conseguem levar o pão para casa. É muito bom sentir que fazemos a diferença. Por isso só posso sonhar com o dia em que eu possa dar uma maior contribuição.

Em criança sonhava em ser médica ou enfermeira e vir para Africa ajudar os mais necessitados. A vida levou-me a desviar das áreas médicas mas presenteou-me com ajuda psicológica, já que enveredei por psicologia. Cresci então ainda mais tendo vontade de ajudar os outros a mudar a mentalidade, a serem mais felizes, a sorrirem mais, a ultrapassar rancores e pesadelos e a desejar sonhar mais e mais. Pode ser que essa psicologia se junte ao gosto de ensinar e um dia possa formar alguém a ser um cidadão melhor e mais benéfico para este país.

Abraço!

sábado, 23 de agosto de 2008

22 de Agosto - Lobito Saída à Noite

Fui tirar fotografias para o novo visto do passaporte. Se passo mais de um mês aqui tenho de renovar o visto. Até para tirar fotografias é um desafio. Entro numa loja com duas fotocopiadoras grandes do lado direito e dois computadores do lado esquerdo. Ao centro direito junto de uma das janelas está uma cadeira de plástico branca, mais cinzenta do que branca, dada a sujidade da mesma...com um cartão branco por detrás a servir de fundo para a fotografia. Lá me coloquei pronta para a fotografia... o rapaz tirou-me 10 fotos e a camera falhava sempre, até que resolveu retirar o cartão, limpá-lo na camisola e voltar a tentar...finalmente disparou mas eu já cansada, fiquei com ar de enjoada...não se pode ter tudo paciência.

Á noite fui com os meus colegas e pessoal do exército, marinha e força aérea a um restaurante português onde comemos uns caranguejos enormissimos (parecidos com sapateiras pequenas), muito gostosos :) depois seguiram-se petiscos que passo ao lado, como dobrada ou choco frito, por exemplo.
Seguiram-se algumas horas de conversetas e apanhei boleia de alguns militares de volta para o hotel, já que os meus colegas deixaram-se entusiasmar com a conversa...e eu já estava cansadita.
Amanhã, sábado irei passear um pouco e conehcer estas ruas do lobito, e à tarde irei à praia relaxar um pouco. À noite irei a um pub conhecer a noite do lobito.

Bom fim-de-semana!

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Quinta-feira, dia 21 de Agosto - Lobito

Olá,
hoje foi um dia de aventura e adrenalina. De manhã, peguei no carro (super yaris chinês & indiano) e conduzi os meus dois carissimos colegas Sr.MP e Sr.ME, até à Baía Farta, que fica a mais de 30kms do Lobito. Foi com alguma ansiedade e nervosismo que conduzi aqui em terras africanas. Como já havia mencionado anteriormente o trânsito é caótico, ora se ultrapassa pela direita, ora pela esquerda, ora por ambos os lados simultaneamente. Decidi manter uma postura atenta e calma e tudo correu bem, com a ajuda de um excelente co-piloto, o Sr. MP. Apesar de termos sido mandados parar por um polícia, mas que afinal era rotina e logo pediu as suas desculpas pelo incómodo causado a nós Srs.Drs. dos CFB (Caminhos de Ferro de Benguela). É complicado guiar um yaris em ruas com valas do tamanho e profundidade de 2 ou 3 bolas de futebol, com porcos e cabras a passear nas estradas e candungueiros a 300km à hora (salvo seja), mas lá se fez com cuidado e segurança. Depois de 2h de caminho e alguns enganos chegámos à Baia Farta...bolas que aquilo se "farta" de cheirar a peixe podre...lá Farta é a baía, farta de peixe, tanto peixe que apodrece ao ar e deixa um rasto de cheiro e de moscas que nem imaginando...digo-vos que foi dos piores cheiros que alguma vez senti...

A praia, apesar de ter a areia relativamente suja com objectos esquecidos pelas pessoas, tem uma água cristalina, muito limpa. Vêem-se bastantes barquinhos a pescar, é uma zona bastante atractiva do ponto de vista da natureza, é selvagem!


Voltámos rumo ao Lobito, agora demorámos menos tempo, pois os percalços da ida já não se repetiram.

Depois do almoço, e da concretização final de um trabalho ainda pendente fui visitar a Fábrica da Secil, 2ª maior cimenteira de Portugal, implantada em Angola e com excelentes niveis de produção. Este contacto nasceu da saída que fiz com o meu novo protector, o Sr.JA, que me deu a conhecer pessoas responsáveis por esta empresa e que tão gentilmente se ofereceram para me fazer a tour. Foi excelente, um mundo de oportunidade e de crescimento neste sector do cimento, ou não estivesse Angola a ser reconstruída...claro está, com cimento!

à noite, eu e os meus coleguinhas mais o Sr.HC da Secil fomos jantar à Cabana na Restinga, onde passámos um bom bocado, apesar de termos sido bombardeados com as notícias do acidente do avião da Spanair...que choca qualquer um, independentemente dos kms de distância.

O meu respeito e solidariedade às famílias das vítimas deste acidente trágico.

Abraço!

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Turismo em Lobito

Depois de várias horas de voo para finalmente aterrar no aeroporto da Catumbela (Lobito), cheguei ao hotel, tomei uma banhoca, e mudei de roupa para ir passear com o Sr. J.A, o meu companheiro de voo Lubango-Luanda-Huambo-Lobito :) Num jipe Volvo acabadinho de estrear partimos em direcção a Benguela, por entre estradas em obras repletas de "Agentes Fixos" (= pinos) e minadas de kupapatas (=motos-taxi). Iriam-se então juntar mais pessoas, amigos e colegas de trabalho.

Conheci pessoas fantásticas, com uma propensão para o risco fora de série...afinal não é qualquer pessoa que abandona portugal para iniciar uma nova vida em Africa e ainda para mais em Angola. Aqui a questão é que Angola sofreu muito com estes 30 anos de guerra, e 6 anos de paz não são o suficiente para que se note uma grande evolução em termos de mentalidade. Infra-estruturas, inovação, comunicações, transportes, etc..., tudo isso vai de vento em popa, mas a mentalidade ainda é retrógrada. Ainda se vêem pessoas, em plena cidade, a satisfazer as suas necessidades fisiológicas, numa esquina, ou no passeio...é impressionante! Em termos de civismo e cuidado com o ambiente, as atitudes das pessoas também deixam a desejar. Qualquer pessoa deita uma lata de sumo que acabou de consumir para o chão, e quem diz isso diz tudo o resto, papeis, plásticos, cascas de banana...sei lá...tudo!! Para terem uma ideia, o governo aposta em grandes acções de sensibilização de civismo. Na TV passam a toda a hora publicidade sobre o que não fazer em termos de poluição, agressividade contra os outros, como se estivéssemos a tentar domesticar animais selvagens.

Bom mas estava eu a contar o meu dia de domingo...

Começámos por ir almoçar a um restaurante fantástico, buffet, onde a comida era a menor das atrações,



já que nos presenteram com uma passagem de modelos, da Miss Benguela, onde desfilaram bonequinhas negras perfeitas, sem vestigios de celulite ou estrias...tudo no sítio.







E depois actuaram com danças e rituais característicos deles. A celebração da vida e da morte, os rituais da comida, o amor, as lutas... tudo em dança ritmada por dois "tambores" (não sei o nome específico dos instrumentos).







Depois de algumas horas decidimos partir para conhecer locais belíssimos.



Fui às tão aclamadas Caota e Caotinha, onde as águas translucidas convidam ao olhar fixo de quem por lá passa, mas como o post já vai extenso, continuo amanhã com a parte 2 da tour.

Abraço

domingo, 17 de agosto de 2008

16 de Agosto – Viagem Lubango-Lobito>Luanda-Huambo-Lobito – Parte 2

Pois é…às vezes as viagens mais simples tornam-se em desafios inimagináveis…ora passadas 2 horas de espera pelo avião que viria de Luanda para Lubango e que depois prosseguiria para Catumbela e novamente para Luanda, decidi deixar de olhar para as paredes e ver qualquer coisa no TV Plasma de 37 polegadas da sala de embarque, mudei portanto de poiso. Rapidamente comecei a conversar com um Sr. Angolano (Branco) muito simpático, Sr. J.A., administrador de uma empresa com sede em Portugal e com fábricas em Angola, já experiente nestas andanças que me “”acalmou”” ao dizer-me que esperar 2 ou 3 horas é coisa pouca. Há alguns anos atrás…esperavam-se dias…chegavam a esperar semanas pelo avião. Senti-me logo mais descansada J , depois de conversa pr’aqui, conversa pr’acoli, o tempo até que passou mais depressa e rapidamente, depois de 4 horas, entrávamos no avião da TAAG rumo a Catumbela (Lobito). A viagem decorreu sem problemas e cerca de 40 minutos depois, a 1 minuto de aterrar o avião que se fez à pista da Catumbela sobe novamente para nunca mais regressar à pista! Bom…desassossego geral, cerca de metade dos viajantes iam para o Lobito e ficaram super impacientes. Inúmeras pessoas chamavam pelos hospedeiros que nunca mais saíam do cockpit…os segundos demoravam a passar…a pista ficava cada vez mais para trás…”rumávamos para onde? Porque é que o avião não aterrou? Será que teve algum problema com o trem de aterragem, e se não conseguimos aterrar? (Olhei logo para os locais onde estariam as mascaras de oxigénio, bem como os coletes salva-vidas, comecei a fazer planos estúpidos de sobrevivência)”.

Eis se não quando, a voz do Comandante Miguel rompe os meus pensamentos, dizendo algo do género: “Estimados passageiros, lamento informar mas não pudemos aterrar no aeroporto da Catumbela devido a uma avaria nas luzes da pista, assim seremos obrigados a prosseguir viagem para o próximo destino, Luanda, onde serão posteriormente informados sobre novo voo para Catumbela amanhã durante o dia de Domingo. Lamentamos o incómodo, tudo faremos para que esta viagem seja o mais prazerosa possível. Obrigado”

…ok agora sim senti um alívio momentâneo porque afinal estava tudo bem com o avião, mas logo de seguida o pânico invadiu o meu cérebro cinzento quando soou uma campaínha tipo alarme: LUANDA!!! LUANDA!!! CAOS! “Oh que chatice, então agora vou sozinha para a selva? Eu e o aeroporto de Luanda não nos damos muito bem, verdade seja dita, é como atirar presas aos leões, sabemos que até podem sobreviver mas é tudo uma questão de tempo…no aeroporto de Luanda é tudo uma questão de dinheiro…e esse estava na minha bagagem, pouco trouxe comigo, portanto Mayday,” Olhei desesperadamente para o meu novo companheiro de viagem, espelhando um olhar canino desamparado, ao qual obtive uma resposta silenciosa mas ensurdecedora de tão clara que foi “Não se preocupe” gesticulou o Sr. J.A. “Ok Rute não te preocupes, sim claro, mas por via das dúvidas manda sms ao Super J.S (coordenador da minha equipa), ele saberá ajudar-me. Foi naquela altura que pensei que o Sr. J.S estaria à minha espera na Catumbela e certamente viu o avião a levantar, logo…já se pôs a mexer…embora mais tranquila, fui ter com o meu novo protector, stressada claro, tentando saber os planos ao detalhe do resto da nossa viagem.

Depois de mais de 40minutos a sobrevoar Luanda, aguardando que o espaço aéreo abrisse por causa da chegada do avião presidencial, lá aterrámos e aguardámos na pista, junto ao avião por noticias..

A TAAG de Luanda não tinha sido informada de nada e não sabia quem éramos e o que estávamos a querer exigir…NORMAL, expectável…na verdade, na altura só queria saber da minha bagagem, pelo que quando o meu padrinho Sr. J.A me disse que a bagagem seria entregue enfiamo-nos no bus em direcção ao check-out. Claro que fomos de imediato abordados por algumas pessoas que querem ganhar dinheiro, mas lá está…a experiência do meu novo protector irradiou um escudo e só teve de responder a um dos leões, estávamos seguros! Nova etapa…bagagem…coisa simples não? Tapete, bagagens em cima, vai rolando e tal…

Amigos estamos em Africa, ok? Nada é simples…pois então vamos tornar as coisas mais interessantes, saquem a luz! Ah assim está melhor, mais de uma centena de passageiros amontoados junto aos tapetes, com mosquitos esfomeados a sobrevoar o espaço aéreo agora às escuras…bagagens inertes sobre os tapetes! Num qualquer país europeu as pessoas manter-se-ião calmas e sossegadas, aqui não, o pessoal começou a dirigir-se ao tapete para retirar bagagens…no escuro! Portanto a probabilidade de agarrarem a minha mala por engano de repente aumentou. Sorte…que a luz apareceu entretanto e avistei a dita que veio ter comigo alguns segundos depois.

Já tinha entretanto falado com o Super J.S, que me garantiu que teria um condutor à minha espera para me levar para a casa (hospedagem da empresa em Luanda), estava em paz finalmente. O meu novo protector convidou-me para jantar e claro…8 horas depois da última refeição, esse convite foi no mínimo tentador. Lá fomos com o condutor da empresa dele. Entretanto o condutor da minha empresa foi tentar saber do nosso voo do dia seguinte.

Estar em Luanda com pessoas que se movimentam bem é essencial. Primeiro porque há muita insegurança e violência nas ruas e temos de saber que zonas devemos evitar. Segundo porque a cidade é lindíssima mas só conhece esse rosto da cidade quem tem experiência acumulada. Assim sendo, tinha todos os ingredientes para me dar bem e assim foi. O Sr. J.A levou-me a jantar à Ilha do Cabo em Luanda, a um dos locais mais In para passar bons momentos, o restaurante-bar Chill-Out, fabuloso local à beira mar com um ambiente suave colorido de beiges e castanhos, música chillOut, verdadeiramente encantador e um must para qualquer turista. (vejam a opinião de uma bloggista: http://loulououicestmoi.blogspot.com/2008/04/fim-de-semana-prolongado.html )

Entre troca de experiências, curiosidades, uma garoupa e um caril de lagosta, ainda bebemos um champagne Moët & Chandon que marcou com um brinde especial este longo dia de aventura. Afinal esta tour a Luanda até calhou bem, graças à generosidade e know-how deste meu novo protector. Sim porque desde o aeroporto até à Ilha vi edifícios lindíssimos com direito a legendagem, para que não me escapasse nada. Diga-se de passagem, ter o privilégio de ouvir as dicas do Sr. J.A não é para qualquer um, portanto estava no céu, se é que isso é possível em Luanda. Já cansados e consoladitos com a refeição maravilhosa que tivemos, fomos então cada um para a sua residência e marcámos encontro às 4.30h am para novo embarque. Tal aconteceu, não pela TAAG que demorou em organizar um voo, mas sim por outra companhia aérea que nos levou às 6.30h até ao Huambo, prosseguindo posteriormente para o Lobito, uma hora e meia depois.

A aterragem em Catumbela foi a mais bela de toda a minha vida, não foram muitos os voos que fiz até hoje, mas os suficientes para haver termo de comparação. Ainda bem que não o fizemos de noite, porque iria perder a vista mais linda de sempre…imaginem campos e campos verdes com plantas tropicais, bananeiras, palmeiras, e por aí em diante…natureza farta, rica, vasta…parecia que o avião ia aterrar no meio da vegetação. Foi no fim de tudo…uma boa prenda. A prenda maior foi ver o meu querido coordenador à minha espera a sorrir…claro que esbocei um sorriso largo de tanta felicidade e alívio que senti ao vê-lo, estava de volta a esta terra linda que me acolheu tão bem há duas semanas e ia ter com os meus coleguinhas.

A seguir muita coisa boa aconteceu, o meu protector angolano ainda me fez outra surpresa boa…que mais tarde contarei…agora faz-se tarde, é tempo de repor o sono de dois dias, para enfrentar uma dura segunda-feira cheia de candidatos sedentos de me darem muito trabalhinho.

Que experiência esta, hein? Ai Africa, és imprópria para cardíacos ou hipertensos, lá isso não há dúvida. Nunca se pode fazer planos…”day by day, one step at the time”

Beijos…

16 de Agosto – Viagem Lubango-Lobito - Parte 1

São 13.12h de Sábado dia 16. Estou a escrever a partir da sala de espera do aeroporto de Lubango. Cheguei com os meus colegas Sr.B e Sr.G, além do representante das Relações Públicas dos Caminhos de Ferro e o condutor, por volta das 11.30h. Depois das despedidas e feito o check-in sem dificuldade fui almoçar ao restaurante que fica situado no piso 1 do aeroporto. Tem uma varanda que dá para a pista de aterragem. Sempre que um avião levanta voo ou aterra toda a gente corre para a varanda para ver o espectáculo, achei piada! Assim que me sentei para comer, fui logo abordada por um rapaz, o Paulão.

“Como é que te chamas? De onde és? És casada? Vens passear? Para onde vais viajar? Voltas?”. Perguntas e mais perguntas, alguns piroupos… "Tens uns olhos muito bonitos, usas lentes de contacto? És muito bonita. "


Lá chegou a minha sopa e o pessoal disse para ele se calar e deixar-me estar à vontade. A certa altura como as mesas começam a escassear, dois rapazes pedem permissão para se sentarem na minha mesa, disse que sim claro. Um deles sempre silencioso e cordial não incomodou, já o outro, Ricardo, não se calava, novamente as perguntas da praxe…se era casada, o que vinha cá fazer, se voltava…os olhos eram mesmo meus ou eram lentes? Pediu o meu número de telefone. De ambas as vezes que me pediram o número tive de inventar um número móvel qualquer de portugal…não sei quem atenderá quando eles telefonarem mas eu não serei com certeza. Terminei rapidamente o almoço e pedi a conta, mas por entre enganos de troco, pedido de factura, meia-hora passou e eu ali a responder a todas aquelas questões e a sorrir...ui muito eu sorri com este sorriso metálico…até que o tal Ricardo confessou:

“Se não fosses casada não te deixava sair daqui”. É pah…foi quando saí mesmo…”ah e tal, está na hora de ir lá para baixo para embarcar. Chau e espero o teu telefonema”

…estava a ver que não me livrava dos moços…menina branquela de olho azul está-se mesmo a ver não é? Bom, agora aqui na sala de espera já me sinto mais segura. Desta vez há luz suficiente, não tive de fazer check-in às escuras! Aguardo impacientemente que o avião chegue…já li todas as possíveis revistas que trazia, agora oiço música e olho para as paredes…os meus coleguinhas Sr.B e Sr.G já me ligaram para ver se estou bem…não há como não me sentir mimada. Confesso que estava desejosa de sair do Lubango, obviamente não pela companhia nem pela cidade em si. O problema é que aqui não há condições para se estar. No lobito temos mobilidade, aqui não. Hoje por exemplo, não havia luz de manhã…sem net, sem luz, sem carro, faz-se o quê? Vai-se para onde? É um problema…os meus colegas coitados…espero que se safem neste fim-de-semana e vão passear, se não é um stress. Quem me conhece já sabe como sou, um bichinho que não pára…aqui é impossível, sou um peixe fora de água, stresso com a falta de stress deste pessoal.

Então, na segunda-feira passada, os meus colegas acabam de chegar aos caminhos de ferro de manhã, e querem começar a trabalhar…o chefe vira-se para eles e diz-lhes: “Não, calma, descansem um pouco”…mas esperem…descansar? São 08h da manhã e ainda agora chegámos, descansar porquê?? Estão a ver o estilo…não se percebe e não vale a pena questionar, descansa-se e pronto.

Bom, já volto…vou começar a desligar o material…faltam 15 minutos supostamente. Até lá vou ouvindo a minha musiquinha rock (BJ), que nunca me abandonou nestes momentos mais difíceis :) … espero que as pilhas não acabem, LOL.

Inté

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

15 de Agosto de 2008 – Último dia no Lubango

O dia começou mais tarde hoje, pois o condutor atrasou-se 1 hora e meia. O primeiro destino foi ir à Serra da Leba, um local que o meu Popey já me havia descrito como sendo impressionante de tão belo que é. É uma serra magnífica cujas rochas são gigantes multicolores de verde, vermelho, azul acinzentado, imponentes e soberbamente rasgadas pela erosão. O perfil dos rochedos da serra fazem lembrar aquelas figuras Incas que por vezes vemos em madeira, com traços esguios e geométricos. Não faço ideia a que altitude estive mas…com certeza a alguns milhares de metros. Pois fizemos 20kms a descer a Serra, pelas famosas “escadinhas”.


São o conjunto de estradas que parecem formar degraus ao longo da serra. Segundo o condutor fomos o primeiro grupo que não enjoou durante a descida e subida da Serra, pelo que podem imaginar o quão serpenteada é a estrada…acho que estávamos todos tão entusiasmados em filmar e capturar em imagem aquela vista que nem nos lembrámos do estômago…curiosamente quando o condutor nos confessou esse detalhe senti uma leve indisposição…ah psicologia…sempre a funcionar em pleno… A nossa descida pela Serra foi rápida, alcançando ao fim dos 20kms um mercado à beira estrada, onde de ambos os lados se poderiam ver variadas barracas com um propósito grande, vender comida.


Como eram 12h decidimos abancar numa barraca e comer uma perna de frango acabada de assar no carvão…estas barracas estão munidas de uma mesa e cadeiras e bebidas para as pessoas podem relaxar um pouco durante a viagem Lubango-Namibe (feita através da Serra, e que consta de cerca de 200km),


lá nos servimos do belo franguinho e depressa partimos de volta, subindo as inúmeras “escadinhas” da serra mais bonita que alguma vez vi. Próximo destino Barragem das Neves ( se entendi bem é assim que se chama), no meio de tanta seca, de solo seco e árido, aparece-nos uma barragem maravilhosa e enorme que rompe os verdes montes da região.


Vale a pena visitar esse contraste. Por ultimo fomos ao Cristo Rei, de onde podemos avistar toda a cidade do Lubango, é incrível a magnitude desta cidade, não consigo traçar os limites da povoação, estende-se por uma área tão grande que é de perder de vista, mesmo de um ponto tão alto como este. O Cristo Rei é uma estátua semelhante à nossa, embora bem mais pequena, 4 ou 5 vezes mais pequena. Encontra-se bem no alto da Nossa Senhora do Monte, como que a abençoar a cidade.





E pronto foram estas as visitas turísticas que fizemos durante o dia de hoje, agora é tempo de trabalhar, para recuperar o dia “perdido”. Amanhã voarei de volta para o Lobito, para continuar o trabalho de selecção para funções idênticas às desta semana: Serralheiro e Electricista para os caminhos de ferro do Lobito. Serão cerca de duas semanas lá e depois, não sei ainda se vou uma semana para Luanda, parece que as eleições atrapalham um pouco o nosso programa. Vamos ver…começo a ficar com saudades de casa, das boas condições, da vida privilegiada que levo em comparação com esta daqui…aventura e desconhecido é bom, faz-nos crescer mas também amolga o coração e desperta a saudade dos meus mais queridos que estão todos desse lado.

Vemo-nos amanhã?

Sexta-feira dia 15 de Agosto - Lubango

Acabei de compor os posts antigos com as fotos prometidas, ainda não estão todas mas já dá para ter uma ideia das imagens que vi, em cada local que relato. São 00.41h e estou prestes a ir dormir. Conto hoje ir passear um pouco e conhecer a provincia do Huila (onde se insere o Lubango) em maior pormenor. Este será o meu ultimo dia no Lubango, depois irei de volta ao Lobito para mais duas semanas de trabalho, após as quais creio que devo regressar a casa. A semana aqui passou-se bem, deu para descansar e interagir n primeira pessoa com a realidade africana.
Hoje fico por aqui, o cansaço vence por agora...

Abraço

P.S.- mais duas picadas na perna...duas borbulhas que fazem comichão e pouco mais... faz parte...em cada região pelo menos uma picada.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Dias 12 e 13 de Agosto – Lubango

Hoje dia 12, depois de 10 horas de sono rejuvenescedor acordei para mais um dia de trabalho e estava bem prontinha para ele. Infelizmente não havia água nem luz quando acordei mas uma pessoa habitua-se a estes percalços, as condições são até muito boas, por isso não me vou queixar mais. Durante a manhã estive a corrigir os testes de ontem e a fazer os relatórios, depois fui almoçar. Existe aqui um café restaurante de portugueses espectacular, tem sandes, tostas, pizzas, peixe, carne, e tem um excelente aspecto, talvez por isso os poucos brancos que se vêem na rua vão lá comer, sentem-se em casa, pelo menos eu sinto-me muito bem lá, e a comida não é cara. É um ponto muito positivo aqui do Lubango, estar tão distante de casa e depois ter a sorte de poder almoçar numa casa que nos faz lembrar a nossa terra. Depois do almoço fomos passear um pouco, acabei por gastar 300 Q. nuns óculos escuros da “Dolce & Gabanna”, são 3 euros; aqui o tempo é muito seco e o sol perturba muito a visão, já para não falar no pó que ingerimos e que se cola às minhas lentes de contacto, por isso negociados os óculos de 500 Q para 300Q, foi bom negócio., passámos ainda por uma loja de artesanato e encomendei uma tela, vamos ver se o pintor consegue pintar a minha descrição de Africa, tentei ser bastante clara, tal como vocês dizem que sou aqui no blog. Se ele perceber a minha visão sairá uma tela bonita, se ele não entender ele fica com a tela e eu volto de mãos a abanar.

Voltei para a residencial depois do trabalho e o Sr. B tinha-me dito que atrás do nosso condomínio havia um aglomerado de casas pobres, eu quis logo ir lá conhecer a tão dura realidade africana, e assim fomos os dois munidos apenas da maquina fotográfica e de muita vontade de ajudar o próximo. Encontrámos uma família composta por uma mulher e 4 filhos.




Na realidade aquela mulher já teve mais de 10 filhos, mas muitos morreram ainda bebés e outros mais crescidos, provavelmente de malária. O marido partiu para Luanda e há bastantes meses que não manda salário. Diariamente esta família vive dos favores de outras com mais posses, o jantar de hoje não foi excepção, cerca de 300gr de hortaliça servirão para alimentar estas pessoas e amanhã…é um dia novo e a comida será uma incerteza. Fomos visitar a casa deles, escura totalmente por dentro, toda em pedra e com tecto baixo de zinco seguro por pedras, a casa tem uma sala, um quarto e mais não vimos devido à escuridão. Pobreza…pobreza! Não são felizes isso eu posso dizer, o olhar não engana. Posso não conseguir ajudar o mundo mas esta família amanhã e depois de amanha terá o que comer. Contei com a ajuda do administrador do condomínio que cedeu uns enlatados, arroz, vinagre, sal. Eu amanhã irei comprar leite, pão, cereais, frutas e vegetais…tudo será pouco para alimentar as crianças mas…será uma ajuda preciosa para quem por vezes não come uma única refeição por dia. Estou desejosa pelo fim de dia de amanhã. Vou tentar também comprar uma bola de futebol e alguns brinquedos, mas isso depende do preço, pois estou sem dinheiro. É por isto que vale a pena vir a Africa, porque temos a oportunidade de fazer o bem a quem realmente dele precisa.

Beijinhos…e obrigada Sr.B

Dia 13, como não tenho net porque o Director decidiu vingar-se e ficar com ela, tenho de postar dois em um quando tenho oportunidade, hoje “roubei” a net ao chefe de serviço…ah e tal tenho de confiscar a sua Internet, amanhã de manha devolvo… - OK pode levar… - Fixinho assim é que eu gosto, eheh. Bom, esta net não é lenta é mais que isso…mas hoje tenho muito para contar, com sorte consigo postar. Acordei cedo e logo comecei a avaliar mais pessoal, às 11.45h saí a correr para apanhar um supermercado aberto, eu e o Sr.B fomos comprar bolachas, agua, leite e outras coisas mais, para a tal família. Tivemos sorte, encontrámos tudo o que queríamos. Fomos almoçar ao café Huila (que recomendo) e voltámos ao trabalho.




À tarde já desejosa de voltar para casa para fazer a minha boa acção e depois de saltar uns quantos muros e cair na terra de quatro, consegui ir ter com a família entregar os bens que comprámos com tanto carinho. Ficaram muito felizes e hoje o jantar já vai ser melhor, que bom… Tirámos também algumas fotos com eles.



A casa é mesmo pobre, agora temos termo de comparação, outra casa similar à deles, a cerca de 200 metros de distância, é completamente diferente por dentro. Uma família com 7 crianças, tem mobílias de todo o género em casa. Algumas crianças dormem no chão, mas na sua maioria a casa tem condições, dentro do padrão daqui…depois verão as fotos quando chegar ao lobito e tiver net para fazer upload.


a cozinha:



Essa família é muito alegre, ri muito, brinca muito, ao contrário da outra a quem demos a comida…são opostos mesmo, ainda bem que pudemos ajudar uma família necessitada, se pudesse reproduzia isto milhares de vezes, enche-nos por dentro.



Como não sei se poderei voltar à net, porque o “Deus nº2” pode vingar-se também, fica desde já a notícia de que vou explorar o Lubango na sexta-feira, pois é feriado e ninguém trabalha, em principio irei ver umas cascatas lindas, trarei imagens para poder partilhar um pouco da experiência. Aqui beleza natural é o que não falta.

Beijocas e obrigada por me acompanharem nesta viagem.

P.S.- algumas curiosidades:
Higiene: chi-chi faz-se na rua, quer sejam mulheres, homens ou crianças. As fezes fazem-se para dentro de sacos plásticos e atira-se para cima do telhado da casa. São rotinas dos mais pobres! /Acabou de faltar a luz) difícil escrever assim…o brilho do ecran ilumina suavemente as teclas e espero conseguir mesmo assim…bom ia a contar que a higiene pode ser por vezes realmente precária. O cheiro das pessoas é horrível, alguns cheiram a catinga mas isso é o normal e está tudo bem, mas cheirar a lixo?? Nunca vi tal coisa. Aqui a questão é que há lixo nas ruas, junto das casas das pessoas mais pobres e então o que acontece é que as pessoas ao estenderem as suas roupas ao pé das suas casas, estas apanham o odor da rua, já para não falar do pó, claro…então não imaginam o que é, estar em pleno escritório dos caminhos de ferro e passarem por mim pessoas que cheiram a lixo, mas a lixo mesmo, daquele lixo que cheiramos quando abrimos um grande contentor desses que há nas nossas ruas…aquele cheiro adocicado tipo podre…yah as pessoas cheiram assim…algumas pelo menos. Indescritível. Bom, a luz não quer aparecer e os olhos j+a se cansam…por isso acho que vou ficar por aqui.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Segunda-feira dia 11 de Agosto Lubango parte 2

São 15.41h, estou com uma moca daquelas…tipo zombie sim!! Tipo “ não durmo uma noite inteira há mais de uma semana e já mereço”…não tenho nada para fazer, a net é lenta demais para andar a navegar na net, nem para ver emails há velocidade suficiente…para postar um textinho tenho de fazer três ou quatro tentativas…poxa vida difícil hein??


Na verdade estou razoável, claro que muito cansada, mas também sabe bem não fazer nenhum depois de tantos dias de trabalho intenso e sem tempo para teclar. Hoje estou numa província nova, o oposto da outra que era no litoral, esta é bem no meio dos montes, cá no interior. Tinha dito anteriormente que ia ter grandes condições na residência…pois…já me disseram que não há água para ninguém…banho diário é para esquecer, não vai haver cheiro a catinga, mas algo semelhante e igualmente intenso certamente vai crescer. A comida também parece que não é a melhor, tem uns efeitos secundários chatos, daqueles que nos fazem sentir indispostos o dia todo…ai estava mal habituada, meu querido hotel barulhento do lobito…agora tenho a paz mas também tenho a escassez de recursos própria do campo, neste caso própria do deserto… menos mal posso partilhar a “dor” com os meus novos dois colegas Sr.G e Sr.B, companheiros de voo de executiva e agora companheiros do Deserto…contrastes novamente. Mas também é como digo, só quem prova o amargo é que sabe apreciar o doce, então pois, quando for hora de regressar ao lobito estarei em pulgas…bom pensando bem, estarei em pulgas, em mosquitos, larvas e moscas…estarei um nojo, mas na mesma feliz. Agora estou no gabinete do director dos caminhos de ferro, estou com Deus hoje. Verdade seja dita, quem não chora não mama e não me queriam dar meios para trabalhar, como assim não há Internet? Mas a ADSL ainda não chegou ao deserto? Que atrasados…nunca imaginaria…não há wireless à sombra da palmeira? Então como é que o africano trabalha? “Só no gabinete do director”, ok não há maca, vamos lá ter com Deus…Oh Dr., preciso de Internet para trabalhar, sabe como são os relatórios…é preciso Internet…cede-me aquela sua mesa ali do lado?? Já agora tem net móvel? Que bom…pode ceder-ma?

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Cheguei à hospedagem…suja de pó, transpirada de um dia cheio de calor e desejosa de tomar um banhinho quente e relaxante…qual quê…lá bom aspecto a hospedagem tem, mas cadé agua? Cadé luz? Rien de rien…chamámos o chefe do sitio que lá ligou o gerador e a bomba de agua…terá agua quentinha disse ele…pois sim, tomei banho com agua a ferver…de FRIA que estava, até queimava. Já não basta o Lubango ser frio à noite, ter de tomar banho com água fria não ajuda. Tive azar…mas aqui está-se muito bem, é muito sossegado, vou finalmente conseguir dormir e dormir e dormir, descansar que bem preciso…já estava a ficar muito rabugenta com falta de dormir, é que o hotel dos navegantes é muito porreiro, mas demasiado barulhento, ao fim de alguns dias uma pessoa ressente-se, sobretudo se for uma pessoa com sono de passarinho como eu.

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São 19.48h, já jantei um belo bife com batatas fritas acompanhado com uma sopinha de hortaliça com massa tipo lacinhos, comeu-se bem. Agora vou trabalhar, já tenho testes para ver, trabalhar para ver se aqueço, está mesmo frio e eu sem camisolas… mas Mãe não te preocupes, estou bem, estou um espectáculo!!!

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Domingo, dia 09.08.08 Visita a Benguela (post atrasado)

Isto hoje vai sair grande por isso…cuidado com os olhos!!

O meu último dia no Lobito antes de ir passar uma semaninha de trabalho ao Lubango (irei amanha), foi passada entre algum descanso, preparações de última hora e um belo passeio à capital da província, Benguela. Foi com certeza uma viagem inesquecível, como poderão ver pelas fotografias. Assim que se sai do Lobito, entra-se num mar de estradas em construção, ruas esventradas à direita e à esquerda pelos chineses ou pelos brasileiros (ex.: colocação de fibra óptica), obras por todo o lado, pó que nunca mais acaba…o trânsito é um caos, ultrapassagens pela direita e pela esquerda, não há faixas nas estradas, pelo que por vezes acontece sermos ultrapassados quer pela esquerda quer pela direita ao mesmo tempo, algo do género…lata de sardinha…se há espaço para dois automóveis e uma mota, então vamos lá testar bem a largura da estrada…é um stress…

Grande Sr. D. que teve de ir com atenção triplicada, sempre a olhar para todos os espelhos do carro, e ainda ia a explicar curiosidades que entretanto aconteciam, não é fácil…garanto!!!

Não se vê um único semáforo, ou um sinal de trânsito, como por exemplo um sinal de sentido proibido. Se não existem sinais deste género, como é que sabemos em que rua virar? Pois…não sabemos, claro está que estes portugas se enfiaram por algumas ruelas de sentido proibido, durante as quais fomos olhados de esgueira com sentido crítico, mas vejamos…só quem conhece é que eventualmente poderia saber, de outra maneira, entra-se em qualquer rua e espera-se pelo pior. O pior acontece frequentemente, trata-se de uma mota ou um jipe a 160km/h em ruas que no máximo aguentam 80km/h…o que acontece? Acidentes frequentes. Não é a primeira nem a trigésima vez  que se ouvem travões a fundo e gritos…o que não falta é jipes a baterem em motas ou carros uns contra os outros…o pessoal acelera a olhar pró lado…anda no meio das estradas, e depois claro está cai, magoa-se e faz dói-doi, “fica depois incomodado” durante vários dias.

Bom mas como ia a dizer, fomos de Lobito a Benguela pelas estradas esventradas fora. A paisagem natural é…de um lado vegetação, bananeiras, palmeiras, grandes campos de intenso verde, parece que estamos mesmo na selva, só não se vêem animais selvagens, (algumas cabritas e bois apenas), de resto parece que estamos fora da civilização, de vez em quando “fisgam-se” umas construções pré-fabricadas onde os chinocas dormem, é o poiso deles. Mas não são uns pré-fabricados quaisquer, estão muito bem assinalados, com direito aos candeeiros chineses característicos a marcar cada um dos extremos da porta principal da entrada para este complexo.
Do outro lado da estrada, erguem-se montes secos (os tais tipo Afeganistão) onde se plantam aldeias com milhares de casas.



O aspecto é sempre o mesmo e embora já tenha visto e revisto esta imagem 500 vezes, parece que me continuo a surpreender sempre que a vejo, pois pelas minhas contas já tirei cerca de 30 fotos semelhantes desde que cheguei a Angola. É que o aspecto é tão mau mas tão mau… que impressiona e cativa o premir da fotografia incansavelmente. Bom, mas deixo aqui mais algumas dessas imagens**, é de facto uma paisagem comum a todo o País infelizmente.






Curiosamente ao passarmos de carro vemos as pessoas a rirem e a conversarem à beira da estrada, onde, como já mencionei, vendem os seus bens, sobretudo frutas, vegetais e peixe. È incrível como é que esta população tão pobre, com condições abaixo das moralmente dignas, consegue pelo menos “parecer” feliz. As crianças brincam à apanhada, ao jogo do mata, jogam futebol, correm para trás e para a frente, divertem-se muito, os adultos riem-se e conversam todos ao mesmo tempo, é algo que nos faz alguma impressão, mas pela positiva claro.

Finalmente chegámos a Benguela, metemo-nos com certeza por alguma rua de sentido proibido mas rapidamente alcançámos a “marginal”…e logo se seguiu uma vista magnífica sobre o mar, onde centenas de jovens e crianças se banhavam e brincavam. Resolvemos sair do carro e palmilhar esta terra. Logo encontrámos juventude animada e o Sr. M.P. imortalizou-me numa fotografia com as meninas mais lindas de Benguela, futuras Misses com certeza.



Todas andam na escola, por isso fazem parte do futuro de Angola…muito importante!!! Ficaram doidas quando lhes pedi para se juntarem de forma a enquadrarem-se na moldura, sorrisos e mais sorrisos, não dava vontade de sair de junto delas.



Estava um dia quente e húmido, em que o Sol finge não queimar e não ferir os olhos. Muito bom para passear ou para beber uma Cuca numa confortável esplanada com vista para o Ocenano. Ora bem, claro está que este grupinho de jovens trabalhadores lusitanos já com a garganta seca foi mesmo prá bela da Cuca (cerveja angolana, eu optei pela tradicional Coca-cola), com direito a vista para o mar e lá ficou a deliciar-se com aquele quadro marítimo durante alguns minutos.


Durante esse período muita coisa acontece, desde miúdos pequeninos que nos pedem dinheiro em troca de engraxar os sapatos, ou em troca de nada, pedem porque estão carentes e pronto, a miúdos que “atacam” os pratos repletos de comida dos clientes da esplanada e que rapidamente são corridos pelos polícias que patrulham a área. Depois vêem-se Hummers (jipes de luxo) a passearem-se pelas ruas. É uma tristeza, tantos contrastes, riqueza e pobreza nuns poucos metros.


Éramos 4, mas para não variar colei-me ao Sr. M.P que muito me ensina nestas caminhadas, graças à sua extraordinária cultura geral e grande curiosidade em aprender mais sobre esta terra. Também diga-se de passagem que não é difícil impressionarem-me, sou bastante ignorante em termos de cultura geral, mas tento beber tudo o que me dizem, e por norma não me esqueço, é tudo tão interessante... mas só à conta desta viagem já aprendi muitas histórias importantes sobre os caminhos de ferro portugueses (experiências dos meus colegas seniors) e sobre a vida em geral, Obrigada senhores!!

Depois de muita caminhada, embora ainda cedo, já o Sol ameaçava pôr-se, voltámos de regresso, eram quase 5 horas da tarde. Fizemos o trajecto inverso mas decidimos não parar no hotel, continuámos até à Restinga, quem sabe não era desta que via alguns flamingos…Marguinha, não tive essa sorte novamente, sorry, mas foi curioso aperceber-me que o Angolano gosta e sabe como divertir-se aos fins-de-semana. Ao chegar à Restinga, imaginem uma língua de terra que se prolonga no mar, começamos a ver três filas de carros estacionados, não me perguntem como é que o pessoal da primeira ou da segunda fila sai, eu desisti de entender…devem sair todos aos mesmo tempo, devem conhecer-se digo eu…bom, toda a gente enfiada nos bares tropicais à beira mar…música e diversão com vista para o mar, 5 estrelas…receita para uma bela tarde de domingo.
Mas não é tudo porque o domingo é longo e a festa também, só às 01h da manhã é que o silêncio se apoderou das ruas do Lobito, até então era festa sem parar, ora na rua da frente ora na rua de trás, pum pum pum “musica de preto” é prá abanar mesmo sem cansar, all night long…mas espera aí…amanhã é dia de trabalho e esta gente anda na farra?…pois ora bem mas o lema dos angolanos é: “hoje é hoje, amanhã é amanhã”, percebem a ideia não é?? É que o meu lema não é bem esse, é mais do género “vou-me deitar cedo para cedo me levantar, pois é dia de trabalho!”, sou mesmo tonhó, eu sei…nada africana, muito embora estas bochechas comecem a escurecer de tanto sol que apanhem, é só mesmo casca, por dentro sou europeia e pronto, nada a fazer, não tenho o bum bum, nem o ritmo da pretinha, felizmente também não partilho do cheiro (ui esta gente quando se junta emana um cheirooooo…amigos, novamente não é fácil, acreditem).

Bom mas o dia foi bom, passou-se muito bem, em excelente companhia, o Sr.D., é um guia turístico do melhor. Por acaso saiu-me a sorte grande… saíram-me quatro pessoas completamente distintas…o Sr. J.S. é um que nunca falha, está sempre a tratar daquilo que faz falta, é um coração gigante, multifacetado que não deixa que as coisas corram mal, sim mesmo em Africa, sim eu sei…estão a pensar que isso é impossível, mas acontece e no meio de tanto “Sim Sim” dito pelos negros, e de “nada que acontece”, sabe bem ter uma pessoa assim, 5 estrelas, só diz um Sim e tudo acontece. Depois temos o Sr. M.P que nos premeia pela sensatez e experiêcia de vida, afinal 65 anos de histórias e conhecimento enchem a alma dos mais piquenos como eu. O Sr. D.R é uma risada, no meio de tantas histórias e experiências surreais, tem sempre tempo para incluir umas experiências gastronómicas no meio…desde abutres deliciosos a cobras gorduchas, a tomatinhos de boi marinados…(enfim, tudo isto à hora de almoço, também não é fácil), saiu-me a sorte grande, nem me passaria pela cabeça, aqui fica um “Não há maca” aos meus colegas, que amanhã ficarão no Lobito e eu parto sozinha mas cheia para Lubango… mais uma aventura desta destemida branquela.

Segunda-feira lobito-lubango

São 07.08h da manhã, estou no aeroporto da catumbela, junto de Benguela. Vou voar para o Lubango onde irei ficar a trabalhar esta semana, voltarei no sábado. Saí do hotel do lobito às 06.05h, ainda era noite, fui a única passageira da camioneta…o que por si só já é interessante…deveríamos estar no aeroporto às 06.30h…esqueçam, às 06.45h ainda estávamos a caminho. Felizmente aqui todos se atrasam e o check-in só começou meia hora depois. O check-in também foi engraçado. A sala de check-in não tem luz artificial de maneira que para iluminar um pouco a sala, os trabalhadores usam pequenos candeeiros de mesa que trazem consigo. Fiz o check-in no escuro :-)

Há poucas pessoas a voar para o lubango, deve ser um avião muito pequeno. A viagem é rápida, demora apenas cerca de meia-hora. Agora terei de esperar até por volta das 9h, hora em que talvez estejamos a partir daqui…isto é tudo um pouco assustador, mas de alguma forma funciona bem :-)







Até já

Voltei…cheguei ao Lubango…só deserto, os típicos bairros degradados e pobres, vivem aqui mais de 1 milhão de pessoas, sem dúvida… Depois de muito pó e muitos saltos no jipe, cheguei à residência, vou ficar muito bem instalada… grandes condições…vai dar para descansar e recuperar o sono que se perdeu no lobito graças ao barulho da vila. Aqui é tipo…campo!!!!



Bom, tenho net precária por isso vou pedir ao popey para postar os meus textinhos… espero receber comentários. :-)

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Lobito - Último dia da semana - 08.08.08

Olá, boas!!!

São 14.34h e estou no meu quartito de hotel a trabalhar. Hoje finalisei as avaliações da primeira categoria: Os Factores. A melhor nota foi de 52,4%, a pior foi de 20,6%... Em Portugal, menos de 50% seria impensável, aqui temos de nos adaptar, é o que é!!

Aproveitei que tive um tempinho livre e net boa, para adicionar umas fotos aos meus posts antigos. Pode ser que agora com mais tempo possa adornar os meus testemunhos com imagens. Até porque por mais que a escrita seja boa, uma imagem vale mais do que 1000 palavras.

Junto deixo as vistas do meu local de trabalho... bonitas hein?

esta é uma ex-casa de portugueses, que depois foi ocupada por familias locais.


aqui dá para ver um predio em construção, uma pequena amostra de toda a construção que se está a fazer por todo o Lobito, e provavelmente por todos os centros de Angola. Pode ver-se o porto também e instalações ferroviárias