segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Cultura vs Vida

Quando vim para Africa tinha a noção de que iria encontrar aqui uma cultura muito forte, muito enraizada nas pessoas, muito tradicionalista. Afinal, 30 anos de guerra fez com que muitas "leis" do passado se fortificassem ainda mais, proibindo qualquer tipo de modernização. Isso vê-se em inúmeros detalhes. Mas preocupa-me um detalhe em particular...a saúde das pessoas. Bem sei que aqui o conceito de família, de amor, até de sexo é diferente; e respeito isso. Estou longe de concordar mas respeito porque entendo as origens. Nós também já fomos assim há 30 anos e na realidade haverá com certeza locais do nosso pais onde as pessoas ainda se comportam desta forma. Familias paternalistas, onde a palavra do homem é a primeira e a última, famílias com 10, 15 filhos, e onde existe violência doméstica...ou não...quer dizer...esse conceito é moderno, as mulheres sempre foram vítimas de abusos e isso nunca foi considerado um "abuso", fazia parte; o conceito de violência doméstica há-de ser recente!

Aqui o que me preocupa é a violação dos direitos das mulheres. Se não reparem, por exemplo, um caso que conheci hoje... uma rapariga de 21 anos, muito engraçada, intelectualmente avançada até, para o que é vulgar aqui, candidata à universidade; tem um problema nos seios, tem nódulos que podem ser ou até já serão malignos.

O médico receitou-lhe há um ano um gel em alternativa a uma operação (recomendada) que ela não quer fazer, porque se a fizer, ficará "mutilada" e poderá nunca casar, porque os homens não a vão querer. Provavelmente irão considerá-la inútil para a amamentação ou até procriação...vão considerá-la uma aleijada!!!

A preocupação dela, que deveria ser a de proteger a sua vida, querendo ser operada o mais depressa possível...não é. Ela preocupa-se com o casamento, com a família.

Infelizmente parece que o medicamento não existe cá e estamos nós a tomar as devidas medidas para trazer para cá o dito cujo. Mas é de lamentar isto...

Culturas machistas onde sempre morreram milhares e milhares de vidas...ainda florescem aqui em Africa e não há nada que possamos fazer, se não tentar ajudar com os meios que temos e que eles aceitam.

7 comentários:

sara nascimento disse...

tenho muita dificuldade em compreender como é que uma rapariga da minha idade em vez de lutar pela sua vida, luta por uma família que ainda nem existe!
esta história,como muitas que tens contado, servem para valorizarmos mais aquilo que damos como adquirido,por exemplo os medicamentos...
espero mesmo que a consigas ajudar!

muitos beijinhos*

MrJazzMan disse...

www.one.org - A sério, façam qualquer coisa, não fiquem à espera que venham fazer por nós.

MrsCreativity disse...

sarita, é porque há estas histórias que tens que ser a melhor médica do mundo :) e tens de vir cá e ajudar...tens de vir ver estes sorrisos e ao mesmo tempo ajudar a mudar estas mentalidades retrógradas. Só os médicos têm poder para fazer isso, porque podem "meter" medo e valorizar o que realmente interessa. Só eu sei a vontade que tenho de cá ficar a ajudar este povo. Acredita que só volto para Portugal por causa das pessoas que aí estão. É frustrante viver num país que tem tudo e ainda nos queixamos que não temos nada. A vida dá muitas voltas e nunca se sabe...um dia posso vir a salvar vidas aqui, é um sonho que não vou perder de vista...se puderes ajudar com a tua contribuição daqui a 4 anos...dá o teu contributo à humanidade.

beijinhos

PoPey disse...

O problema é que quem pode fazer e manda nesse País pouco faz. É quase como se fosse uma fatalidade ter que existir essa triste e probre realidade !!

Mas sim, concordo que é uma GRANDE experiência ir para África fazer voluntariado durante algum tempo. E realmente trabalho e oportunidade para ajudar é coisa que não falta !!

Esta semana passou na televisão um programa dos "Padrinhos de Portugal". Vale a pena espreitarem no Google o que é isto, pois é uma ideia simples, julgo que eficaz e, essencialmente, julgo que inovadora !!

Abraços e Beijos a todos !!

CC disse...

Uma cruel realidade, incompreensivel, e que nos deixa um nó no pescoço pela impotência de não podermos ajudar como queremos.

Essa mulher já decidiu pela morte... uma morte perfeitamente "aceitável" pelas leis da vida que orientam aquela gente....

Concerteza que para ela, viver desintegrada dos conceitos e hábitos pré-estabelecidos da sua sociedade, não é vida.... isso sim seria uma decisão contra-natura... o seu "suicidio".

É triste e revoltante tomarmos conta da existência destas mentalidades...

Pat disse...

Como já o escrevemos algumas x, são realidades muito diferentes das nossas, não só pela economia deturpada que por sua vez leva á miséria, mas também pelos próprios valores dessa sociedade que nos fazem ficar de «boca aberta» de espanto...

Mas é assim em Africa, na India e em muitos outros sítios...

E sim, como diz o Popey, há muitas formas de os ajudar - financeiramente - mas, os ideias, os hábitos, a cultura, os valores em que foram criados, (e como tu relatas e bem, por vezes podem levá-los à morte) são muito dificeis de contrariar (ex:mutilação genital feminina)...embora já haja ONG'S que o tentam fazer.

Mas, se a única forma de os ajudar for criar escolas, ajudar uma criança na sua educação, dar apoio na saúde, tentar mostrar-lhes alguns valores de uma outra cultura digamos mais civilizada, etc...então façamos isso e muito mais para ajudar este povo...e muitos outros...

Beijos

Marguinha disse...

Olá Lobitanga"guinha"..
Custa muito conviver com a cruel realidade...mas não podemos esquecer que uma geração inteira foi criada a ouvir tiros e viver conflitos,sem educação,condições básicas e infraestruturas
de qualquer ordem.
Creio que hão-de lá chegar,mas talvez sejam ainda necessárias várias décadas para a reconstrução total desse imenso tecido humano em sofrimento.
É urgente sim, que muitas mãos amigas ajudem esse povo a levantar-se do chão, porque os poucos que têm milhões não vão abdicar de nada em favor dos milhões que têm tão pouco...se é que têm alguma coisa..
É um paradoxo...tanta riqueza e tanta corrupção numa terra dividida pelos interesses do petróleo e dos diamantes para a qual a comunidade internacional
olha serena e impávida,enquanto os seus filhos morrem vitimizados pela fome e doença.

Mas,o caminho para essa e outras Angolas espalhadas pelo mundo permanece e renova-se...as aprendizagens sucedem-se e quem sabe, outras novas mentalidades não terão forçosamente de repôr a ordem natural das coisas.

Se de alguma forma eu puder contribuir para minimizar o sofrimento dessa menina, sabes que podes contar comigo.

Fica bem e até breve.....
Miljinhos