Depois de 4 horas de alguns pesadelos e muitas preocupações com picadas de mosquitos acordei para a viagem que me iria levar para o Lobito, o 1º destino do meu trabalho. Às 6h.30h partimos de carro e 8 horas de viagem se seguiriam. De entre estradas perigosas embora em bom estado e condução a 160km/hora, vi paisagens lindíssimas e marcantes, as típicas arvores da savana, os catos, palmeiras, toda a vegetação particular de Africa, de forma tão rica…nunca tinha visto nada igual. Já tinha ido a cabo verde mas pouca vegetação havia, aqui é por demais, ainda em tempo seco (Inverno) há muita vegetação. Claro que a paisagem natural é rapidamente rasgada pelas pequenas aldeias inóspitas e incolores onde vivem milhares de africanos em condições sub-humanas. As habitações são feitas de cimento feito da areia vermelha tão característica deste lugar ou de betão cinza. São quatro paredes cobertas com um tecto de lâminas de alumínio seguras por pedragulhos. É uma imagem surreal, triste!!!
Durante todo o percurso somos abordados com pessoas à beira da estrada a segurar galinhas acima das suas cabeças, para que os condutores as possam ver e parar a tempo de as comprar; ou crianças com peixes na mão, a vender fruta, carvão, doces. Vêem-se muitas crianças e mulheres nas estradas a tentar comercializar o que podem. Não se vê ninguém a parar…
Depois de 300km e de 3horas e meia de enjoo parámos no Sumbe, uma cidade pobre como a maioria, e à beira mar. Aí parámos para reabastecer o depósito e para almoçar num restaurante muito simpático na praia. Comemos garoupa grelhada. O dia estava enublado, muito húmido como é normal sentirmos, para os angolanos é um período frio e seco. Com temperaturas a rondar os 22-25 graus, é ainda assim difícil respirar fundo.
Prosseguindo em viagem pudemos ver outro tipo de aldeias, aldeias segundo os conhecedores, típicas africanas, em que as casas são feitas de paus, areia e pedra e de vegetação…não fiquei a saber concretamente se a vegetação tornava a casa impermeável às chuvas, mas calculo que não. As pessoas, sobretudo crianças e mulheres estão sentadas, quase inertes, sem grande actividade…
Embora se vejam muitas crianças nas ruas, muitas mesmo, é raro verem-se idosos, talvez a pessoa mais velha que tenha visto, me tivesse parecido ter 50/60 anos. Depois de algumas perguntas e respostas fiquei a conhecer a esperança média de vida dos angolanos, apenas 40 anos. Tudo se explicou rapidamente.
Entrámos finalmente no Lobito, uma cidade no litoral, com um subúrbio demasiado danificado, quase insuportável! Impossível não sentir um aperto no coração…parece que à medida que o dia passava as imagens eram cada vez piores…embora quisesse manter a minha postura de turista aventureira e fiz um esforço por sorrir com todos os neurónios activos…fui-me abaixo, olhei em frente para a estrada desejando passar rapidamente por aquele cenário, que sinceramente me fazia lembrar imagens de aldeias do médio oriente recentemente bombardeadas…fazia-me lembrar o Afeganistão…aquelas terras sem cor, com pó e pedra, casas quadradas, esburacadas e em ruínas…ao olhar para trás vi distanciar-se de mim esse aglomerado de vidas e forcei-me a olhar para a frente, uma cidade pequena velha, mas com o mínimo dos mínimos de condições. Rapidamente saí do carro e entrei no hotel 3 estrelas Navegantes. Depois de tudo o que vi, estas 3 estrelas são 5 na minha mente. Não poderia pedir mais, estou muito bem. Daqui a duas horas é tempo de jantar e depois irei preparar o trabalho da semana, a avaliação psicotécnica de candidatos dos caminhos de ferro. Vai ser muito interessante.